Portugal e o Índico

As Ilhas do Almirante

Um grupo de ilhas das Seicheles ainda hoje se chama Amirantes, as Ilhas do Almirante. O almirante era Vasco da Gama.

História · Portugal e o Índico
Carta de marear

A rota que abriu estes mares

De Lisboa ao Cabo da Boa Esperança e daí, pelo Índico, até às Seicheles. A mesma rota que a Carreira da Índia cruzou durante um século.

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O nome que atravessou cinco séculos

A sudoeste do arquipélago das Seicheles estende-se um cordão de ilhas de coral com um nome que resistiu a quinhentos anos de história. Chamam-se Amirantes, do português Ilhas do Almirante. Não é um nome inventado por uma agência de viagens nem uma lenda bonita. É o vestígio real de uma presença portuguesa nestes mares, muito antes de qualquer outra nação da Europa aqui chegar.

Para o viajante português, é uma descoberta comovente. Num dos arquipélagos mais remotos e intactos do planeta, o primeiro nome europeu que ficou registado num mapa foi dado numa língua que é a nossa. Vale a pena perceber como, e a quem, e porquê. E vale a pena separar o que é facto sólido do que é tradição, porque este guia não troca a verdade por uma boa frase.

O nome que atravessou cinco séculos
Retrato de Vasco da Gama, o Almirante que dá nome às Amirantes.

Quem era o Almirante

O almirante era Vasco da Gama. Depois de abrir o caminho marítimo para a Índia, o navegador recebeu da coroa portuguesa o título de Almirante do Mar da Índia, uma dignidade criada de propósito para ele, com direitos e rendimentos sobre o comércio do Oriente. Era o homem que tinha feito o impossível, e o reino de D. Manuel I quis marcá-lo com um título à altura.

Foi esse título, o de Almirante, que passou para um grupo de ilhas de coral do oeste do Índico. As Ilhas do Almirante são, no sentido mais literal, as ilhas de da Gama. Cada vez que o nome aparece hoje num mapa de navegação, num bilhete de avião ou na porta de um resort de luxo, repete-se, sem que quase ninguém dê por isso, uma homenagem portuguesa com meio milénio.

Quem era o Almirante
O mapa de Fra Mauro, cerca de 1450, com o Índico no coração do mundo conhecido.

As armadas que cruzaram estes mares

Nas primeiras décadas do século XVI, as armadas portuguesas da Carreira da Índia cruzavam todos os anos o oeste do Oceano Índico. Desciam a costa de África, dobravam o Cabo da Boa Esperança, subiam a Moçambique e a Malindi e depois lançavam-se pelo mar aberto rumo a Goa e ao Malabar. Foi nesta rede de viagens repetidas que as ilhas de coral baixas e dispersas das Amirantes foram avistadas, registadas e desenhadas.

Os cronistas da expansão, João de Barros nas suas Décadas da Ásia e Gaspar Correia nas Lendas da Índia, guardaram a memória destas navegações. A tradição liga a designação das Amirantes à passagem da segunda armada de Vasco da Gama, em 1502, já com o seu título de Almirante. Nomes como o de João da Nova, que em 1501 e 1502 percorreu este mesmo mar e a quem se devem outros reconhecimentos no Índico ocidental, aparecem no mesmo período.

Aqui é preciso ser honesto. A atribuição exata, qual o capitão que primeiro as avistou, em que dia, não é uma certeza documental fechada. O que é seguro é o essencial, que o reconhecimento e o nome destas ilhas pertencem à navegação portuguesa deste início de século, e que o nome honra o Almirante. Preferimos dizer isto com rigor do que inventar uma cena que soaria bem e não se pode provar.

As armadas que cruzaram estes mares
Carta antiga das ilhas do Índico ocidental.

Coral e granito, duas geografias

Há uma confusão que convém desfazer. As Seicheles têm dois tipos de ilhas muito diferentes. As graníticas, altas, antigas e cobertas de floresta, são as que quase todos visitam, Mahe, Praslin e La Digue, e ficam no centro do arquipélago. As Amirantes são outra coisa, ilhas de coral planas, a sudoeste, muitas delas minúsculas, algumas apenas bancos de areia.

É nas Amirantes que a marca do nome português é mais nítida. Fazem parte deste grupo ilhas que o viajante de hoje reconhece dos retiros mais exclusivos do mundo, Desroches, Alphonse, Poivre, D'Arros, Rémire, Marie-Louise e os African Banks. São nomes de várias épocas e línguas, mas o guarda-chuva que as reúne, o do grupo inteiro, continua a ser o português Ilhas do Almirante.

Coral e granito, duas geografias
As Seicheles espalham-se por 1,4 milhões de km² de oceano. As Amirantes ficam a sudoeste das ilhas graníticas centrais.

O mapa, antes de o mundo as conhecer

O grande feito português nestes mares não foi levantar um forte, foi levantar um mapa. No início do século XVI, os cartógrafos ao serviço de Lisboa colocaram o oeste do Oceano Índico no conhecimento europeu com um rigor que ninguém tinha. O planisfério de Cantino, de 1502, saído clandestinamente de Portugal para a corte de Ferrara, é um dos primeiros mapas a mostrar a rota do Cabo e o Índico ocidental com detalhe, e é hoje uma das jóias da cartografia mundial.

Foi por esta via, o mapa e o roteiro, que ilhas como as Amirantes entraram na memória do mundo. Antes da povoação, antes das bandeiras, antes de qualquer colono, já estas águas viviam no papel português. Cartografar é uma forma de posse mais subtil e, neste caso, mais limpa. Portugal deu a estas ilhas existência no mapa da humanidade, e seguiu viagem.

As Amirantes hoje

Cinco séculos depois, as Ilhas do Almirante são alguns dos lugares mais exclusivos e protegidos do planeta. Desroches tem um único resort de luxo e quilómetros de praia deserta. Alphonse é uma meca mundial da pesca desportiva à linha e do mergulho. D'Arros e o atol de Saint Joseph são hoje uma reserva de investigação marinha. Chegar a elas exige voo privado ou uma travessia longa, e por isso permanecem quase intocadas.

Para a esmagadora maioria dos viajantes, incluindo os portugueses, a viagem começa e faz-se nas ilhas graníticas centrais, mais acessíveis e igualmente extraordinárias. Mas saber que, ali ao lado, um cordão de ilhas guarda um nome português com quinhentos anos dá outra profundidade à viagem. Conheça as ilhas das Seicheles e veja como chegar desde Portugal.

Imagens: Unknown master of the Portuguese School.. (Public domain); Fra Mauro (W. Fraser) (Public domain); Duroslan (17..-17..?). Commanditaire du contenu (Public domain) · via Wikimedia Commons

Fontes

  1. João de Barros, Décadas da Ásia, século XVI.
  2. Gaspar Correia, Lendas da Índia, século XVI.
  3. Planisfério de Cantino, 1502, Biblioteca Estense Universitária, Módena.
  4. Encyclopaedia Britannica, verbetes Amirante Islands e Seychelles.
  5. Registos históricos sobre a designação das Ilhas do Almirante e as armadas portuguesas no Índico ocidental no início do século XVI.

História verificada contra fontes primárias e de referência. Onde a atribuição exata de uma data ou de um comandante não é certa, é assinalada como tal, porque a honestidade vale mais do que uma boa história.

Perguntas frequentes

Perguntas sobre as ilhas do almirante

Porque se chamam Amirantes?

Amirantes vem do português Ilhas do Almirante. O almirante era Vasco da Gama, que recebeu o título de Almirante do Mar da Índia depois de abrir o caminho marítimo para a Índia. A navegação portuguesa do início do século XVI reconheceu e nomeou estas ilhas de coral.

Vasco da Gama descobriu as Seicheles?

Não no sentido de as ter povoado. A navegação portuguesa cartografou e deu nome a estes mares, e a tradição liga as Amirantes à segunda armada de da Gama, em 1502. Mas as ilhas centrais que hoje se visitam ficaram desabitadas até ao século XVIII e foram povoadas pela França.

Onde ficam as Amirantes?

A sudoeste das ilhas graníticas centrais das Seicheles. São ilhas de coral planas e dispersas, como Desroches, Alphonse, Poivre e D'Arros, muito diferentes das ilhas altas e verdes de Mahe, Praslin e La Digue.

Posso visitar as Amirantes?

Algumas, mas com dificuldade e a preços altos. Desroches e Alphonse têm resorts de luxo alcançados por voo privado. A maioria dos viajantes fica pelas ilhas graníticas centrais, mais acessíveis. Veja o nosso guia das ilhas.

As Seicheles foram uma colónia portuguesa?

Não. Portugal cartografou e deu nome a estes mares, mas nunca colonizou as Seicheles. As ilhas foram povoadas pela França a partir de 1770 e passaram depois para a administração britânica em 1814.

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