Carta III

Portugal e o Índico.

A rota que abriu estes mares. Portugal cartografou e deu nome às Seicheles, muito antes de qualquer outra nação da Europa.

A ligação

Portugal viu estes mares primeiro

Esta é a alma deste guia. As Seicheles não são só um destino de sonho, são um lugar por onde a história de Portugal passou. A armada de Vasco da Gama cruzou estes mares a caminho da Índia e deixou-lhes um nome que ainda hoje resiste, o das Ilhas do Almirante. Contamos essa história em três partes, com rigor documental e com honra, e sempre com uma fronteira que não ultrapassamos, a de que Portugal cartografou e nomeou estes mares, mas nunca colonizou as Seicheles.

As ilhas que hoje se visitam ficaram desabitadas até ao século XVIII e receberam história francesa e depois britânica. A marca de Portugal é anterior a tudo isso, e é de outra ordem, a do mapa e a do nome. É uma presença sem conquista, e é raro poder dizer-se isso de uma potência da era dos Descobrimentos.

Três histórias, uma rota

Dividimos esta ligação em três leituras que se completam. A primeira, As Ilhas do Almirante, conta porque um grupo de ilhas de coral das Seicheles ainda se chama Amirantes, do português Ilhas do Almirante, em honra de Vasco da Gama. A segunda, A rota para a Índia, segue a viagem que abriu o Oceano Índico em 1498 e a Carreira da Índia que, durante um século, cruzou estes mesmos mares. A terceira, Cartografar sem colonizar, explica a natureza rara desta presença, um nome sem uma ferida, e devolve a cada povo o seu papel, o francês que trouxe a língua e a cozinha, o britânico que deixou as leis.

Duas geografias, um arquipélago

Para entender esta história convém desfazer uma confusão comum. As Seicheles têm dois tipos de ilhas muito diferentes. As graníticas, altas, antigas e verdes, são as que quase todos visitam, Mahé, Praslin e La Digue, no centro do arquipélago. As Amirantes, a sudoeste, são ilhas de coral planas e dispersas, algumas apenas bancos de areia. É neste segundo grupo que a marca do nome português é mais nítida, e é por isso que a história de Portugal e a viagem de férias, ainda que no mesmo arquipélago, quase não se cruzam no terreno. Uma vive nas ilhas exteriores e no mapa; a outra faz-se nas ilhas centrais.

O vento que ligou as duas épocas

Há um fio que une o navegador do século XVI ao viajante de hoje: a monção. Os mesmos ventos que obrigavam as armadas da Carreira da Índia a partir na janela certa continuam a decidir o melhor mês para visitar as Seicheles. De maio a setembro sopra a monção de sudeste, mais fresca e ventosa; de dezembro a março, a de noroeste, quente e húmida; as viragens, em abril e em outubro-novembro, dão o mar mais calmo. Cinco séculos depois, marca-se a viagem pelo mesmo relógio do vento; veja o detalhe na melhor altura para visitar.

Porque isto importa a quem viaja

Não contamos esta história para exibir erudição, mas porque muda a forma de olhar o destino. Saber que o primeiro nome europeu neste mar foi dado numa língua que é a nossa dá outra profundidade ao momento em que o avião desce sobre Mahé e a água se abre em turquesa. É a diferença entre visitar um postal e chegar ao fim de uma rota que um poeta português cantou. Quando estiver pronto para a fazer, por prazer e não por necessidade, veja como chegar às Seicheles desde Portugal e as três ilhas por onde a viagem realmente acontece.

O Oceano Índico numa carta portuguesa de 1502
As primeiras cartas portuguesas fixaram estas ilhas no papel décadas antes de qualquer europeu lá desembarcar.

O planisfério de Cantino, 1502

A prova mais famosa desta presença é um mapa. O planisfério de Cantino, concluído em Lisboa em 1502 e levado clandestinamente para Itália por um agente do Duque de Ferrara, é o primeiro documento europeu a mostrar o contorno de África até ao Oceano Índico com rigor. Nele já aparecem, a leste da costa africana, ilhas dispersas que os pilotos portugueses tinham avistado a caminho da Índia. As cartas que se seguiram, os portulanos saídos da Casa da Índia, foram fixando esses pontos no papel muito antes de qualquer europeu ali pôr pé. As Seicheles nascem, para a Europa, como um nome e uma posição num mapa português, não como uma colónia. É uma origem invulgar, feita de tinta e de estrela, e é o começo desta história.

Vasco da Gama e o nome do Almirante

O nome que resistiu deve-se à segunda viagem de Vasco da Gama, em 1502. Já com o título de Almirante do Mar da Índia, Gama comandou uma grande armada e, na travessia, a frota passou junto a um grupo de ilhas de coral a que os portugueses chamaram Ilhas do Almirante. O nome pegou. Ainda hoje, moldado pelo francês e pelo inglês, esse arquipélago do sudoeste das Seicheles se chama Amirantes. É um dos raros casos em que um topónimo português sobreviveu intacto em ilhas que Portugal nunca administrou. Cada vez que um mapa moderno escreve Amirantes repete, sem o saber, uma homenagem de há cinco séculos ao homem que abriu o caminho marítimo para a Índia.

As Sete Irmãs e os pilotos da Carreira

Gama não viajava às cegas. A Carreira da Índia, a rota anual entre Lisboa e Goa, transformou este oceano numa autoestrada portuguesa durante todo o século XVI. Os pilotos anotavam ilhas, baixios e correntes em roteiros que eram segredo de Estado. Não muito longe daqui, um capitão chamado Pedro Mascarenhas deu o seu nome às Mascarenhas, as atuais Maurícia e Reunião. Este conhecimento, ciosamente guardado, acabou por escapar, como escapou o planisfério de Cantino, e alimentou os navegadores holandeses, franceses e ingleses que vieram depois. Quando a França finalmente povoou as Seicheles, no século XVIII, chegava a um mar que Portugal já tinha desenhado.

Como se navegava, e porque isso importa

Vale a pena imaginar como se chegava aqui. Sem cartas fiáveis nem cronómetro, os pilotos portugueses guiavam-se pelo astrolábio náutico e pela balestilha, medindo a altura do sol e das estrelas para calcular a latitude, e pela agulha de marear para o rumo. A longitude era pouco mais que um palpite, corrigido pela experiência e pelos roteiros. Numa nau que dependia inteiramente do vento, entrar no Índico na estação errada podia significar meses de espera ou o naufrágio, e por isso a monção não era paisagem, era destino. Cada ilha avistada, cada baixio assinalado, era informação preciosa que se guardava e por vezes se pagava com vidas. O mapa que hoje folheamos com um dedo custou, no seu tempo, uma fortuna em coragem, e é isso que devemos ter em mente ao ver a palavra Amirantes desenhada num canto do Índico.

Estátua de Vasco da Gama
Vasco da Gama, Almirante do Mar da Índia, deu nome às Amirantes na sua segunda viagem, em 1502.

Da rota portuguesa ao povoamento francês

Portugal nomeou, mas não ficou. As ilhas centrais, hoje o coração do turismo, permaneceram desabitadas até muito tarde. Foi a França que as reclamou: em 1742, o explorador Lazare Picault chegou à ilha a que hoje chamamos Mahé, e em 1756 uma expedição colocou a Pedra da Posse em nome do rei de França. O nome atual honra Jean Moreau de Séchelles, ministro das finanças de Luís XV. Os primeiros colonos instalaram-se em 1770, atraídos pelas especiarias que Pierre Poivre quis aclimatar longe do monopólio holandês. Em 1794, no turbilhão das guerras napoleónicas, os britânicos tomaram as ilhas, e o Tratado de Paris de 1814 selou o domínio inglês, que durou até à independência em 1976. A cada povo o seu papel: Portugal deu o mapa e o nome, a França a língua e a cozinha crioula, a Grã-Bretanha as leis e a administração.

Camões, a monção e a memória

Há ainda uma ligação feita de palavras. A rota que trouxe Gama a estes mares é a mesma que Luís de Camões imortalizou n'Os Lusíadas, a epopeia da abertura do caminho marítimo para a Índia. Ler esse poema é reconhecer, em verso, o oceano que hoje se atravessa de avião em poucas horas. E há um fio ainda mais concreto, a monção. Os ventos que obrigavam as armadas a partir na janela certa continuam a decidir o melhor mês para visitar as Seicheles. Cinco séculos separam o piloto do viajante, mas ambos marcam a viagem pelo mesmo relógio do vento. É esta continuidade, entre a rota antiga e a viagem de hoje, que dá a estas ilhas uma profundidade que nenhum folheto consegue. Quem parte de Lisboa refaz, sem esforço e por prazer, o gesto que em tempos custou uma vida inteira de mar, e é bom chegar sabendo disso.

O que resta ver hoje

Nada disto se vê num roteiro normal, e é honesto dizê-lo. As Amirantes ficam longe, alcançam-se apenas por cruzeiros de expedição ou veleiros fretados, e vivem sobretudo no mapa. Mas há gestos ao alcance de quem visita. O Museu Nacional de História, em Victoria, guarda a Pedra da Posse de 1756 e conta a formação do país. Nas livrarias e nos museus encontram-se reproduções dos velhos portulanos e das primeiras cartas do Índico. E há o gesto mais simples de todos: olhar para um mapa das Seicheles, encontrar a palavra Amirantes a sudoeste e saber que a escreveu, primeiro, uma língua que é a nossa. As próprias ilhas das Amirantes guardam nomes que contam a mesma história, de Desroches a Poivre, de D'Arros a Alphonse, memória de franceses e de navegadores sobre um alicerce português. Para a viagem de verdade, a que se faz nas ilhas centrais, veja as três ilhas e como chegar.

Carta de marear

A rota que abriu estes mares

De Lisboa ao Cabo da Boa Esperança e daí, pelo Índico, até às Seicheles. A mesma rota que a Carreira da Índia cruzou durante um século.

OCEANOATLÂNTICOOCEANOÍNDICONLisboaCabo da Boa EsperançaSeicheles
História

As Ilhas do Almirante

Um grupo de ilhas das Seicheles ainda hoje se chama Amirantes, as Ilhas do Almirante. O almirante era Vasco da Gama.

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As Ilhas do Almirante
História

A rota para a Índia

Em 1498, Vasco da Gama chegou a Calecute. A rota do Cabo abriu o Índico, e estas ilhas ficaram no seu caminho.

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A rota para a Índia
História

Cartografar sem colonizar

A ligação de Portugal às Seicheles é rara. É uma presença sem conquista, um nome sem uma ferida.

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Cartografar sem colonizar
Perguntas frequentes

Portugal e as Seicheles, em resumo

Portugal descobriu as Seicheles?

Portugal cartografou e deu nome a estes mares no início do século XVI, e as Amirantes ainda hoje têm o nome que a navegação portuguesa lhes deu, em honra de Vasco da Gama. Mas as ilhas centrais foram povoadas pela França a partir de 1770. Portugal nomeou, não colonizou.

O que são as Ilhas do Almirante?

As Amirantes, um grupo de ilhas de coral a sudoeste das Seicheles. O nome vem do português Ilhas do Almirante, em honra de Vasco da Gama, Almirante do Mar da Índia.

Porque é que este guia se chama A Rota?

Porque a ligação de Portugal a estas ilhas é a rota da Carreira da Índia, que cruzou estes mares durante um século. É uma viagem que começou há quinhentos anos e que o viajante português refaz hoje, agora por prazer.

Boa viagem.

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