A rota para a Índia
Em 1498, Vasco da Gama chegou a Calecute. A rota do Cabo abriu o Índico, e estas ilhas ficaram no seu caminho.
A rota que abriu estes mares
De Lisboa ao Cabo da Boa Esperança e daí, pelo Índico, até às Seicheles. A mesma rota que a Carreira da Índia cruzou durante um século.
A viagem que julgavam impossível
No verão de 1497, uma pequena armada de quatro navios largou de Lisboa rumo ao desconhecido. À frente ia Vasco da Gama, com ordens de D. Manuel I para fazer o que gerações de navegadores tinham preparado sem conseguir concluir, chegar à Índia por mar. Bartolomeu Dias tinha dobrado o Cabo da Boa Esperança em 1488. Faltava dar o passo seguinte, atravessar o Índico.
A frota desceu o Atlântico, fez um enorme arco pelo mar alto para apanhar os ventos e dobrou o Cabo da Boa Esperança em novembro. Subiu depois a costa de África oriental, por Moçambique e Malindi, onde um piloto conhecedor das monções ajudou a armada a cruzar o mar aberto até à Índia. Era território novo para a Europa a cada milha.
Calecute, maio de 1498
Em maio de 1498, a armada lançou âncora ao largo de Calecute, na costa do Malabar, no sul da Índia. Tinham passado cerca de dez meses desde Lisboa. Portugal acabava de fazer o que nenhuma nação da Europa conseguira, ligar o Atlântico ao Índico por uma rota inteiramente marítima. O comércio das especiarias, até aí refém de longas e caras rotas de terra controladas por intermediários, passava a poder fazer-se por mar, de ponta a ponta.
O regresso foi terrível, com a tripulação dizimada pelo escorbuto, e da Gama chegou a Lisboa em 1499 com menos de metade dos homens. Mas o caminho estava aberto. Aquele mês ao largo de Calecute mudou a economia do mundo e inaugurou um século de navegação portuguesa no Oriente.
A Carreira da Índia
Ao caminho que da Gama abriu, Portugal chamou a Carreira da Índia. Durante mais de um século, todos os anos, frotas inteiras repetiram a viagem, levando homens, armas e moeda para Oriente e trazendo pimenta, cravo, canela e seda. Era a maior operação logística do seu tempo, uma linha marítima regular entre Lisboa e o Índico que sustentou um império.
Para a firmar, Portugal construiu uma rede de escalas e feitorias. Afonso de Albuquerque tomou Goa em 1510, que se tornou a capital do Estado da Índia. Moçambique virou entreposto obrigatório na subida da costa africana. E o oeste do Oceano Índico, onde se erguem as Seicheles, passou a ser cruzado ano após ano. As ilhas não eram um porto da rota, ficavam à sua margem, mas estavam ao alcance dos navegadores, e foi assim que as Amirantes entraram no mapa português.
As monções que ditavam tudo
Nada nesta rota se fazia contra o vento. O Oceano Índico é governado pelas monções, ventos que invertem de direção com as estações. De abril a setembro sopram de sudoeste, de outubro a março sopram de nordeste. As armadas tinham de partir na janela certa, ou ficavam meses à espera do vento que as levasse a bom porto. Uma frota que perdesse a monção perdia o ano.
O mais bonito é que esses mesmos ventos ainda hoje decidem a sua viagem. O melhor mês para visitar as Seicheles é ditado pela mesma monção que ditava a Carreira da Índia. Abril, maio, outubro e novembro, as viragens entre monções, trazem o mar mais calmo e o melhor tempo. Veja o nosso guia da melhor altura para visitar. Cinco séculos depois, o viajante português continua a marcar a viagem pelo relógio do vento.
Camões e o mar
Luís de Camões, que navegou o Índico e viveu anos no Oriente, transformou esta rota no poema nacional. Os Lusíadas, publicados em 1572, são, no fundo, a epopeia desta viagem, da partida de Lisboa ao medo do Adamastor no Cabo, até à chegada à Índia. Ler o poema é ouvir o vento que ainda sopra sobre estes mares.
Não é passado morto. É a memória viva de um mar que continua a ser atravessado, agora por prazer e não por necessidade. Quando o avião desce sobre Mahe e a água muda para todos os tons de turquesa, é difícil não pensar que se está a chegar ao fim de uma rota que um poeta português cantou há quatro séculos e meio.
A mesma rota, hoje
E aqui a história toca o presente de forma quase comovente. Quando hoje voa de Lisboa para Mahe, com uma escala no Golfo, refaz em cerca de dezasseis horas um trajeto que a uma nau custava meses de fome, de doença e de medo. Vai mais alto, mais depressa e infinitamente mais seguro, mas por cima do mesmo mar, na mesma direção, movido pela mesma vontade de chegar ao Índico.
A viagem é, no essencial, a mesma. O destino, esse, continua a valer cada hora. Veja como chegar às Seicheles desde Portugal, com as melhores ligações, o mês mais barato e o tempo de voo real, e comece a fazer a sua rota.
Imagens: anonymous Portuguese (1502) (Public domain); Attributed to Lopo Homem, Jorge Reinel, Pedro Reinel and Antonio de Holanda (Public domain); AnonymousUnknown author (Public domain) · via Wikimedia Commons
Fontes
- Roteiro da primeira viagem de Vasco da Gama à Índia, 1497 a 1499, relato atribuído a Álvaro Velho.
- João de Barros, Décadas da Ásia, século XVI.
- Luís de Camões, Os Lusíadas, 1572.
- Encyclopaedia Britannica, verbetes Vasco da Gama, Carreira da Índia e Cape Route.
- História da fundação de Goa por Afonso de Albuquerque, 1510, e do Estado Português da Índia.
História verificada contra fontes primárias e de referência. Onde a atribuição exata de uma data ou de um comandante não é certa, é assinalada como tal, porque a honestidade vale mais do que uma boa história.
Perguntas sobre a rota para a índia
Quem foi Vasco da Gama?
O navegador português que abriu o caminho marítimo para a Índia. Partiu de Lisboa em 1497 e chegou a Calecute, no sul da Índia, em maio de 1498, contornando toda a África pelo Cabo da Boa Esperança. Recebeu depois o título de Almirante do Mar da Índia.
Quanto tempo demorava a viagem à Índia?
A viagem de ida podia levar seis meses ou mais, à mercê das monções, da doença e da tempestade. A primeira armada de da Gama levou cerca de dez meses até Calecute e regressou com menos de metade da tripulação, dizimada pelo escorbuto.
As Seicheles ficavam na rota para a Índia?
Ficavam ao alcance dela. A Carreira da Índia cruzava o oeste do Oceano Índico, onde se erguem as Seicheles. As ilhas não eram um porto da rota, mas foi neste corredor marítimo que os navegadores portugueses as avistaram e deram nome às Amirantes.
Camões esteve nestes mares?
Sim. Luís de Camões navegou o Oceano Índico e viveu anos no Oriente. A sua experiência do mar está em Os Lusíadas, de 1572, a epopeia da rota portuguesa para a Índia, do Adamastor no Cabo à chegada ao Malabar.
Como se voa hoje de Portugal para as Seicheles?
Não há voo direto de Lisboa. Voa-se com uma escala, tipicamente via Dubai, Doha, Abu Dhabi ou Paris, com Emirates, Qatar Airways, Etihad ou Air France. O tempo total ronda as dezasseis horas. Veja o nosso guia de como chegar.
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