Portugal e o Índico

Cartografar sem colonizar

A ligação de Portugal às Seicheles é rara. É uma presença sem conquista, um nome sem uma ferida.

História · Portugal e o Índico

Uma verdade simples

Há uma verdade no fundo desta história que vale a pena dizer com toda a clareza. Portugal nunca colonizou as Seicheles. Não há aqui um passado de conquista português, nem um forte, nem uma plantação, nem um povo submetido. A ligação de Portugal a estas ilhas é de outra natureza, mais antiga e mais limpa, a da navegação e a do nome.

Dizemos isto sem falsa modéstia e sem arrogância. Numa era em que a chegada dos europeus significou quase sempre violência, esta é uma exceção rara, e é bom poder contá-la a um leitor português sem ter de pedir desculpa por nada.

Uma verdade simples
Uma carta portulano, instrumento da navegação da época.

Ilhas sem gente

O primeiro facto que muda tudo é este. As ilhas centrais das Seicheles, as que hoje se visitam, estiveram desabitadas até ao século XVIII. Não havia aqui povo nenhum quando os navegadores portugueses passaram no início do século XVI, nem quando os franceses chegaram mais de duzentos anos depois. Foram das últimas terras habitáveis do planeta a receber seres humanos.

Isto tem uma consequência moral importante. Não houve aqui ninguém a expulsar, ninguém a escravizar na terra de origem, nenhuma civilização a destruir, porque não havia nenhuma. A história humana das Seicheles começa tarde, e começa com quem as veio povoar de propósito.

Ilhas sem gente
Astrolábio náutico, para medir a latitude pelas estrelas.

Quem as povoou, a França

Quem trouxe gente para as Seicheles foi a França. Em 1742, o capitão Lazare Picault, enviado pelo governador Mahe de La Bourdonnais a partir da Île de France, a atual Maurícia, chegou à ilha principal e chamou-lhe primeiro Île d'Abondance. Numa segunda viagem, batizou a ilha em honra do seu governador, e ficou Mahe.

Em 1756, uma expedição francesa colocou numa das ilhas a chamada Pedra da Posse, reclamando o arquipélago para a coroa. Foi então que nasceu o nome do grupo, em honra de Jean Moreau de Séchelles, ministro das finanças de Luís XV, e daí Séchelles, que o português fixou como Seicheles. A primeira povoação permanente chegou em 1770, com um punhado de colonos, escravos e alguns indianos, na ilha de Sainte Anne. É desta raiz francesa que vêm a língua crioula, a cozinha e quase todos os nomes de praias e ilhas que hoje se leem no mapa.

Quem as povoou, a França
Naus e caravelas numa pintura de época.

E depois, os ingleses

Durante as guerras napoleónicas, as Seicheles passaram para as mãos da Grã-Bretanha. O administrador francês Jean Baptiste Quéau de Quinssy rendeu-se e voltou a render-se várias vezes, com uma diplomacia hábil que poupou as ilhas à guerra. A posse britânica foi confirmada pelo Tratado de Paris de 1814. As Seicheles seriam administradas a partir da Maurícia e só se tornariam colónia autónoma em 1903, chegando à independência em 1976.

Por isso, ao ler os nomes das ilhas e das praias, o viajante português reconhece o francês por todo o lado, e o inglês na administração e nas leis. Essa é a história do chão das Seicheles. A de Portugal é anterior a tudo isto, e é de outra ordem.

O papel de Portugal

O papel de Portugal foi a navegação e o nome. Cartografámos estes mares mais de duzentos e cinquenta anos antes de a França cá pôr um pé. Demos nome às Ilhas do Almirante, em honra de Vasco da Gama, e seguimos caminho para a Índia. Não ficou aqui um forte português, nem um engenho de açúcar, nem uma plantação, nem um povo submetido, porque não havia povo para submeter e porque não era esse o desígnio.

Ficou um mapa, e ficou uma palavra no mar. É uma forma de presença mais subtil do que a conquista, e, neste caso, incomparavelmente mais limpa. Portugal ajudou a dar a estas ilhas existência no conhecimento do mundo, e não cobrou por isso nenhum preço de sangue.

Uma honra modesta

É por isto que este guia se chama A Rota. A nossa ligação a estas ilhas é a de quem as avistou no horizonte, as ajudou a existir no papel e no mapa da humanidade, e agora as mostra a Portugal com orgulho e sem dívidas. Não viemos reclamar nada. Não há aqui nada a corrigir, nenhuma ferida a tratar, nenhum passado a esconder.

Dizemo-lo sem apagar quem veio depois, os franceses que trouxeram a língua e a cozinha, e os africanos, indianos e chineses cujos descendentes fazem hoje o povo seichelense, um dos mais mestiços e pacíficos do mundo. A honra portuguesa aqui é modesta e verdadeira, a de ter visto e desenhado primeiro. Viemos contar uma viagem que começou há quinhentos anos e convidar os portugueses a fazê-la, finalmente, por prazer. Conheça as ilhas e comece a sua rota.

Imagens: anonymous, probably Genoan (Public domain); Willem Blaeu (Public domain); Circle of Joachim Patinir (Public domain) · via Wikimedia Commons

Fontes

  1. Encyclopaedia Britannica, verbete Seychelles, secção History.
  2. Registos da expedição de Lazare Picault, 1742 e 1744, e da Pedra da Posse francesa, 1756.
  3. História da povoação de Sainte Anne, 1770, e da administração de Jean Baptiste Quéau de Quinssy.
  4. Tratado de Paris de 1814, que confirmou a posse britânica das Seicheles.
  5. Origem do topónimo Seychelles, de Jean Moreau de Séchelles, e de Mahe, de Mahe de La Bourdonnais.

História verificada contra fontes primárias e de referência. Onde a atribuição exata de uma data ou de um comandante não é certa, é assinalada como tal, porque a honestidade vale mais do que uma boa história.

Perguntas frequentes

Perguntas sobre cartografar sem colonizar

Portugal colonizou as Seicheles?

Não. Portugal cartografou e deu nome a estes mares no início do século XVI, mas nunca colonizou as Seicheles. Não houve forte, plantação nem povoação portuguesa. As ilhas foram povoadas pela França a partir de 1770.

De onde vem o nome Seicheles?

Do francês Séchelles, em honra de Jean Moreau de Séchelles, ministro das finanças do rei Luís XV de França. O nome foi dado em 1756, quando uma expedição francesa reclamou o arquipélago com a chamada Pedra da Posse.

Porque é que Mahe tem um nome francês?

A ilha principal foi batizada em honra de Bertrand-François Mahe de La Bourdonnais, governador francês da Île de France, a atual Maurícia. Foi o capitão Lazare Picault, ao serviço dele, que chegou à ilha em 1742.

Quando foram povoadas as Seicheles?

Só em 1770, com a primeira povoação permanente francesa na ilha de Sainte Anne. Antes disso, as ilhas centrais estiveram desabitadas, o que faz delas uma das últimas terras habitáveis do planeta a receber seres humanos.

Portugal e as Seicheles têm relação hoje?

A relação é sobretudo histórica e de memória, o nome das Amirantes e a rota da Carreira da Índia. Hoje, o elo mais vivo é o viajante português que redescobre estas ilhas, e é essa a razão de ser deste guia.

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